terça-feira, 10 de novembro de 2009

Migalhas de um vestido.

ousando algo entre a sociologia, o jornalismo e um quase direito.
Unitaliban revoga expulsão e reconsidera a micro-constitucionalidade da saia de Geisy
Terça-feira, 10 de novembro de 2009


Migalhas (terça-feira, 10 de novembro de 2009 - Migalhas nº 2.264) noticiou: a Uniban - ou, no dito do colunista Macaco Simão, a Unitaliban - "revogou ontem a decisão de expulsar a estudante que usava trajes diminutos."


A expulsão havia sido justificada com o conteúdo de um artigo do regimento interno que apontava a observância da moralidade acadêmica. E então um dispositivo de conteúdo aberto a interpretações transforma-se em exato fundamento para uma expulsão? Se era para inconstitucionalizar, inconstitucionalizasse direito, Uniban! Especificasse os milímetros das saias das garotas! Aí vai uma lição democrática elementar: os dispositivos restritivos de direitos tem conteúdo específico - não se pune com disposições genéricas. Isso é feijão com arroz da noção jurídica.


Sobre a manifestação em si: é preciso lembrar que não há distinção ontológica entre o apedrejamento de mulheres há dois mil anos atrás e a reação dos alunos de uma universidade que agridem uma moça em razão de seu vestido. É a lógica da selvageria que protrai no tempo. Deparamo-nos mais uma vez com o milenar e subversivo hasteamento de bandeiras pseudo-moralistas dos que se julgam no direito de banir, humilhar e coagir aos que geram incômodo às aparências puritanas de um contexto social qualquer.


Não importa se o vestido de Geisy provocou despeitos, desprezos ou desejos de atos de libidinagem. Nada justifica o vandalismo de centenas de desacadêmicos da Unitaliban. Todavia, o Magnífico Reitor achou pouco a desarrazoada, infantil e agressiva reação dos alunos e foi fazer besteira maior com o poder da caneta, expulsando a moça. Ainda bem que o bom senso (ou a postura inquisitiva da imprensa) veio sacudi-lo freneticamente, antes que a coisa inflamasse mais e entupisse de pus jornalístico.


As Geisyses do Brasil devem ter aprendido a lição: na dúvida, microvestidos de malha para os passeios ao domingo, não obstante a constitucionalidade de suas micro-liberdades nesse Estado Democrático de Direitos Sincréticos, mais sincréticos que o vestido mais comentado dos últimos tempos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Revogadas as vocações. Eis as trangressões.

Três verdades escrachadas: 1. a morte é o termo final das espécies; 2. nada é plenamente gratuito e 3. todos os seus colegas de escola que não sabiam na época do colegial que faculdade cursar, estão fazendo Direito agora.

Direito. Um país abarrotado de cursos de Direito. Para todos os gostos, exigências e bolsos. E eu abri as muralhas da minha vida para receber o presente vultoso: passei numa universidade pública, meu cavalo de tróia. Grande surpresa, pensava: no chance. Mas meu santo não desconfiou da esmola voluptuosa. Numa emboscada, atacada sorrateiramente, me vi em combate no campus, lutando por alforrias que jamais imaginei seriam usurpadas.

No primeiro dia do primeiro semestre, assisti uma terrível palestra de um jusfilósofo argentino, cujo dicurso quase nada compreendi, salvo uma frase: " o Direito nos rouba a capacidade de amar." Desde então, sinto calafrios universitários. E munida com a excludente da autodefesa, reuni migalhas de forças para dolosamente assassinar as aulas, para que elas não me matassem num crime continuado mediante envenenamento.

Deixei a faculdade por um tempo - e até hoje resta submantida, subentendida, como se estivesse em stand by à espera de um milagre vocacional que acione o play, ou uma postura definitiva, ou até mesmo uma vergonha na cara.

A desilusão é pérfuro-cortante. Minha ingenuidade e pureza foram brutalmente estupradas. De boa aluna e líder de turma do colegial passei ao status de relapsa. E quando sociologia e filosofia ficaram para trás, provei em definitivo o dissabor da marginalidade acadêmica.

De tudo, procedem as interlocutórias:
Não, ela não tem vocação para repartições, concurseirismos e decorebices legislativas. Deveras crê que não haja espaço para seu tipo aonde o que conta em verdade é a frieza estomacal e todos aqueles esforços para memorizações ipsi literis. Ela é fraca, não se adequa ao polishop jurídico, coitada. Pede até desculpas por sua natureza outsider reprovável, por seu discurso de corrente minoritária amordaçada e superada. Contudo, admite um oásis de autoamor: seu espírito deve ter alguma serventia em outras searas, menos agressivas. E nem pensa em fazer fortuna jurídica, tendo em vista a sua ótica de preciosidades. Ela nada contra a corrente cazuzamente. E em razão de todo esse emaranhado, vive, pois, na iminência de um novíssimo devaneio repetitivo, típico de suas típicas convulsões.
E deu para si um generoso prazo de oito meses para as decisões finais, cabíveis os psicorrecursos a ela inerentes.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Panorama das bestas.

Um tiro.
Foi preciso apenas o disparo para romper corpo e espírito. Poderia ser de qualquer outra forma: enforcamento, romper de pulsos, formicidas, janela de sétimo andar.
O demônio é um gênio criativo e articulado, e a depressão, sua sócia, cuida de angariar as cobaias e armazená-las em reservas de dor. É o panorama das bestas.
O suicídio é um mistério profundo. É a auto-rejeição por excelência. É o anti-institivo, perfura os liames da consciência protetiva do homem. É o resultado de submissão aos experimentos prisionais da depressão.
O mundo tem um plano, que é destruir o homem. E nós, numa afabilidade incrível, no desejo de tentar conservar a existência, produzimos as substâncias externadas num sentimento conhecido: esperança. Parece que o cérebro programa um raciocínio suavizante, um antídoto que alivia a consciência da falibilidade e da morte. O problema é que os depressivos se desconectam dos tubos de esperança e se asfixiam com a realidade rarefeita. Sem a ótica da esperança não há resistência à dor de existir.
Estou triste, meu coração está partido. Nenhuma morte de conhecido havia sido suicídio. É só essa a razão de todo esse falatório. Queria maiores confortos, palavras dóceis e cicatrizantes. Estou em constante oração pelo abrandamento das dores. No mais, só Chico me aquebranta.

Construção
Composição: Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
(...)

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir,
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir,
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague...
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir,
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir,
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

bandidagem

dispersões e plateias teatrais
tu me dás ideias sentimentais
sinto amor pérfuro-percuciente
escapado num suspiro reticente

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Confissões sentimentais de Marieta.


Era uma não-vez Marieta dos Santos. Marieta era jovem e suave em seus 25 anos. Já noiva, corpinho recheado - mas afilado - em seu 1.59, embalsamada de doçura e senso poético. Suspirava ao ver um poema, um conto, um musical. Era funcionária pública com espírito de plateia. Insistia numa ida ao teatro de vez em quando, mas Pedro era um razoavelmente bem sucedido senso-comum, pragmático, programático, incapaz de maiores sensibilidades que aquelas necessárias – estritamente necessárias – para tocar na pele da doce Marieta. Pedro era ótimo, mas não tinha quê de sensibilidades.

Foi sozinha ao teatro. O ator era Ele. Não podia perder a chance de se teletransportar, vez segunda, diante dos olhos daquele que sempre foi o seu favorito, seu escolhido, premiadíssimo em suas noites pós vídeo-locadoras. Marieta não era romântica boba: era uma quase crítica de arte. Uma apaixonada empírica.

Fotografa e ganha autógrafo. Sorri. O coração mal cabia nos botões: provocava em seus seios leves pulinhos, e suas palpitações alcançavam os olhos brilhantes.

Aparência frágil, magro, branco pálido, cujos olhos azuis, por trás de óculos, revelavam - ou, propositadamente, escondiam - um mistério, um ar cruel, envolvente. Subitamente, o amou. A alma do Escolhido a fascinava. Sua vida de mil anos, livros e canções, saraus, filmes, curtas, documentários, segredos, encenações, mil aventuras. Um homem, com a licença da palavra.

E a voz – que voz ele tinha. Assim, próxima a seu ouvido, era mais saborosíssima de ouvir. Mansa, afinada, e, se tivesse um gosto, seria o de um chocolate fino, finíssimo, desses que dissolvem na boca. Na boca da abobalhada Marieta. Se pudesse sugar um pouco daquela alma abarrotada de arte, naqueles sete minutos, sugaria sem pena – seria como embebedar-se de uma fonte de alegria e inteligência.

Num abraço caloroso e saudoso, sentiu-se um tanto constrangida, uma menina que não sabia o que dizer, o que fazer com as mãos, as palavras. “Ora, Marieta, que demência é essa, mulher, justo agora?”- Disse a si mesma. Quanto tempo não o via. Como era menina da última vez que tinha o visto assim, carne e osso! (...) Fugiram... as melhores e mais convenientes palavras de uma conversa espontânea dispararam em todas as direções, restando-lhe uma miserável falta prolongada de léxico. Ficou lá apenas com as mãos nervosas ocupadas na tentativa de conter os cachos rebeldes, amarrados descuidadamente. Impossível parecer natural – revê-lo em sua frente não era natural: era maravilhoso. Resolveu se distrair com o cachorro do escolhido, mas ele já era tarde. “Ah, Marieta, tu queres demais. Tu sonhas demais, mulher”, pensou quase em voz alta. E os olhos azuis retribuíram, silenciosa e delicadamente, tudo aquilo e muito mais.

A grande injustiça da vida de Marieta foi ouvir de seu mais amado ator um curtíssimo pedido: " - quero um autógrafo seu também." Surpresa, Marieta nada respondeu; e recebeu involuntariamente nas mãos uma agenda eletrônica com as opções : nome e telefone. Escreveu automaticamente, num estado de peItálicorplexidade acima de sua elogiada capacidade de descrição.
Saiu dali imediatamente.

No outro dia, desnorteadamente, seis da manhã,recebe uma mensagem: quero ver você. Marcava hora e lugar. Marieta pensou e repensou por todas as horas daquela manhã ensolarada. Estava louca. Tudo restava paradoxo: sua estrela inatingível, seu mais amado artista estava ali, mandando uma mensagem para seu celular. Marieta quis chorar, teve medo. Sentia um movimento revolucionário incontrolável. Duvidou ter coragem para ir até lá, mas... ela foi. E muitas outras vezes, foi. E as vezes pioravam uma por uma. Era tudo turbulento: Ele era ainda mais envolvente para além das telas e palcos. Ainda mais desajeitado, mais doce nerd, mais aconchegante.

Itálico
Agora Marí era uma funcionária pública de vinte e cinco anos, noiva, que não sabia a quem amar. O inatingível desceu as escadas da fantasia, e o alcançável diário, de repente, lembrou de amá-la acima das carícias estritamente necessárias. Estava diante de sua face platônica e sua face palpável, num ringue de luta livre. Uma Marieta anti-convencional gritava, esperneava, soltava os cachos, rasgava tudo. Uma outra ajustava os óculos e tentava oxigenar um cérebro amedrontado, repetindo: " Ah, Marieta, finca esses pés no chão, que você está ficando doida!"

Marieta cortou os cabelos, vestiu um vestido sensualíssimo às sete da noite e foi, sozinha, tomar um sorvete banhado de vinho tinto, na praia. Era toda ânsia e suor. "Oh, Meu Deus.. eu já não estou cabendo em mim."

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Dezessete

Escrevi esse texto aos dezessete anos. Encontrei-o por acaso nos arquivos.. e através dele pude redescobrir o sabor de reconhecer-se mutante, mutatis mutandis.

Do que as mulheres gostam

Eis que me disponho, numa noite especialmente quente, a desbravar um assunto que a muitos interessa – alguns precisam saber, enquanto outros (na verdade, outras) têm grande interesse que os primeiros saibam.
Falarei delas, falarei de nós. Mulheres. Há duas espécies, quase gramaticais: espécie sujeito, e espécie objeto. Como bem ensinaria, na oportuna ocasião, o ilustre professor Paulo Freire, o ser humano deve escolher ser sujeito de si mesmo, ou se tornará objeto de conceitos prontos, um ser a-histórico, incapaz de questionar o porquê de seu próprio comportamento social.
Pois bem. Analogamente, não devemos nos dar o trabalho de falarmos sobre as mulheres-objeto, a-históricas, escravas das futilidades, vulgaridades, e descuidadas de seu valor cultural, moral e intelectual. Falaremos da espécie digna, guerreira, batalhadora: as mulheres que pensam, que têm corpo e alma; as mulheres-sujeito de seu próprio destino. Elas são muitas, de todas as idades, fôrmas e embalagens, de uma diversidade incabível em minhas humildes linhas – mas todas, mulheres que são, têm gostos universais, quase inerentes ao gênero a que pertencem.
Dizem que as mulheres gostam de falar. Deve ser verdade, regra geral. Mas, também em verdade, vos digo: os homens, por sua vez, calam-se demais. Estudamos no colegial, no estudo da físico-química, “soluções” - concentradas e diluídas. Diria, analogamente, que o dom da fala passa de um meio mais diluído (a ausência de emissão de opinião masculina) para um meio mais concentrado (as informações emitidas pela mulher, inclusive sobre as indevidas omissões masculinas.). Seria, então, uma tentativa de equilíbrio do meio.
Mulheres, meus caros, gostam de ouvir - e ouvir elogios, ponderações, observações cuidadosas, demonstrações de admiração, respeito e amor. Alimentam suas expectativas de confirmações verbais, seja sobre a educação dos filhos, o assunto da empresa ou sobre como ficou bem com o corte de cabelo.
Mulheres gostam de DR - discutir a relação – o que é diferente de brigar, insultar, ou algo do gênero – gostam, pois, de deixar os sentimentos às claras. Não sabem ou não querem saber de adiar resoluções ou esclarecimentos. Gostam de datas – diria mais, de datas recordadas. Aniversário de nascimento, de namoro, de casamento, de noivado, ou de primeiro beijo. São amigas de calendários, de seus calendários pessoais, e apreciam a íntima celebração de pontos estrelados de suas vidas. Gostam que seus ciúmes sejam revidados com demonstrações de certeza das intenções masculinas. Farei como a minha avó - darei um exemplo fútil, mas útil: ao perceber o olhar enciumado de sua amada em direção a uma terceira moça, ele, homem de bom-senso que é, abraça-a, demonstrando e reafirmando publicamente que é ela a eleita de cargo irrevogável, intransferível e insubstituível em seu coração. Simples, não? Foi suficiente um abraço. Nada mais.

Homens, eis um conselho: cuidem de suas mulheres. Mulheres de pura casca, vulgares, vadias, são muitas. De mulheres-objeto, há uma saturação neste mundo. Mas não serão elas suas guardiãs, companheiras, cúmplices, capazes de guerrear com vocês, e por vocês; capazes de cuidar, amar, gerar seus filhos: as primeiras são estéreis de amor até por elas mesmas. O homem que tem o privilégio de ter ao seu lado uma mulher-sujeito, dona de seu destino, capaz de agir, pensar, amar, tem o dever para consigo mesmo de descobrir, a cada dia, do que ela gosta – em suma, o meio de fazê-la, sentido amplo, feliz.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Nada melhor: Lispector.

São tantas, tantas ânsias. Náuseas, cólicas, dores pérfidas, aflitivas. Estou na iminência de qualquer coisa. De um arremesso ou de um recomeço. À beira de um resultado que demorará um eternal mês. Embrulhadíssima, enrolada, desengonçada, malamanhada, deixo as coisas caírem, perdi a hora vinte e quatro vezes hoje, e nos últimos dias substantivos compostos que terminam em feira, perdi o que restava dos miolos da cabeça.

Instrospectivamente, me sinto feia. E instropectoriana me sinto uma sinto uma feia lispectoriana. Eis a descrição patológica da eminente psicotramática - e apaixonante autora:

" Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava (...). Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem- abertos, úmidos. Ela era toda doçura próxima a lágrimas. "
Clarice Lispector - Felicidade clandestina.

Daqui há alguns meses, pretendo ler Vigiar e Punir. Será o aquecimento para o Anti-Édipo um ano depois - veja só como meus planos são na velocidade Dorival Caymmi.
Enquanto isso, assisto a novela das oito e espero chegar o dia onze de novembro.